Os horácios e virgílios do Oriente, de onde vêm a fé e a noite, não escreviam em latim, mas traduzir a sua gramática antiga e o metro dos seus versos gravados em caracteres de sonoridades perdidas também é andar atrás de significados que o leitor tem de adivinhar.
Quando descrevo um amigo ou um lugar que me deu abrigo, digo que não esqueço nunca as árvores que um dia me deram sombra.
Eu amo as árvores e as suas sombras.
Amo os dizeres que se escondem atrás dos pincéis dos calígrafos.
Amo o azul do céu e do mar, o verde das ramagens e dos lagos, o rumorejar da passarada e dos regatos, o tempo parado na flor de lótus e nas pinturas das porcelanas e as palavras que saem de uma boca, de uma pena ou de uma página aberta.
Esta faia estava aqui há muitos anos, à espera do momento em que eu pudesse saborear a sua sombra para dela descrever o mundo que contemplo todos os dias com o pasmo essencial das crianças ao nascer, desenhando letras como se soubesse pintar.
Macau, em 22 de Agosto de 2025